quarta-feira, 30 de outubro de 2013

Ela/Ele

Ela caminhou por entre os balanços enferrujados sem se preocupar com a lama no sapato. Estava decidida. Iria pra casa dele.

Uma coisa de que sempre se admirava era o seu orgulho. Mas, dessa vez, o coração bateu mais alto que qualquer outra coisa e tudo o que ela conseguia pensar era nele. Seus lábios, seu cabelo, o jeito que ele sempre sorria depois de dar a primeira tragada no cigarro.

Tudo nele era divino.

Já fazia um mês que eles tinham brigado, mas para ela o tempo passou como se fosse um ano. Seus pés a levaram calmamente até a rua onde ele morava. Estava tudo a mesma coisa, tijolo por tijolo. Isso a entediava. Cada mês seu quarto tinha uma cor diferente, e se pudesse, pintaria toda a casa junto.

Ela hesitou. Nem tudo estava tão igual.

Exatamente em frente a casa dele, no outro lado da rua, havia uma livraria que ela não conhecia. Inconscientemente, atravessou a rua.

Era uma tipica loja americana. A porta de vidro estava com uma plaquinha de “aberto”. Sua mão pegou a maçaneta com força e a empurrou. Pode-se ouvir um pequeno tilintar de um sino acima de sua cabeça. Ao entrar, um leve cheiro de café e livros adentraram suas narinas, fazendo-a suspirar.

Alguns minutos se passaram até um garoto que parecia ter dezoito anos aparecer por entre as prateleiras com um gato vira-lata o seguindo como se fosse um cachorrinho.

Com um sorriso no rosto, perguntou se queria algo específico.

Ela respondeu a verdade: entrou por curiosidade.

O sorriso continuou em seu rosto. Disse que ela era sua primeira cliente e que não se daria por satisfeito até vender alguma coisa.

E ela ficou lá o resto do dia. Saiu com um “Morte Súbita” e um “Se Houver Amanhã”.

Voltou para casa radiante, sem se lembrar do verdadeiro motivo de ter ido até aquela rua.

Será que se ela soubesse que dois anos mais tarde ele seria motivo de tanta tristeza, teria feito diferente? Será que se soubesse que iria doer tanto, teria tocado a campainha ali do outro lado da rua?

Não, com certeza não. Ela se importava mais com a felicidade que teve antes de tanta tristeza. É sempre bom olhar pelo lado mais otimista da vida.

Ela estava andando novamente por entre os balanços enferrujados. Estava decidida. Ia falar com ele. Nem se lembrava mais por que tinham brigado.


No meio do caminho, uma loja nova chamou a sua atenção...

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