sexta-feira, 13 de junho de 2014

Planeta Rascunho

Essa madrugada eu acordei vomitando penas de pavão.

A chuva batia com violência na minha janela querendo um lugar quente pra se acomodar e era possível ouvir um saxofone melancólico soar pelas paredes invisíveis da minha mente.

Caminhei lentamente pelo corredor enquanto as paredes derretiam e se transformavam em água do mar. E então, tudo foi tomado. Eu estava me afogando, mas não me desesperei. Aceitei meu destino assim como um paciente terminal em seu último dia de vida aceita o seu. Fechei meus olhos enquanto a vida era tirada lentamente do meu corpo.

E então, ela pegou em minha mão. Ela era linda. Seu longo cabelo, hora azul, hora verde, balançavam e chicoteavam a água, como se estivessem vivos. Seus olhos negros encaravam os meus castanhos e aquele momento durou a mais bela das eternidades.

Ela começou a se afastar e eu comecei a sentir o frio de sua ausência. Solidão. Tentei segui-lá, mas ela desapareceu, como se tivesse se transformado em pequenas bolhas de água. E tudo escureceu.

Meu corpo estava suspenso. Não na água ou no ar, nada tão simples assim. Ele estava apenas suspenso num vazio infinito e escuro.

Abri meus olhos.

Estava em uma praia. As ondas iam e voltavam, mas não faziam nenhum som. A única coisa audível era um choro distante, o qual eu segui.

Caminhei por horas, mas o choro ainda parecia distante, como se estivesse se afastando a medida que eu me aproximava. A praia se transformou em deserto, a areia se transformou em um solo rachado e o choro ainda parecia distante.

E então, ela apareceu outra vez. Ela estava sentada no chão e na sua frente havia uma caixa enfeitada. Ela olhou para mim e seu olhar parecia triste. Enquanto eu me aproximava, ela desaparecia, como se fosse uma miragem. Mas a caixa continuava lá. Quando cheguei perto o bastante, ela já havia sumido.

Encostei a mão na caixa e senti meu coração disparar. Tirei a tampa suavemente e não me surpreendi com o que havia dentro.

Era a mesma coisa que havia dentro de mim. Era o mesmo que eu esperava das pessoas. Era o mesmo que eu esperava da vida. Era o mesmo que eu esperava de mim.

Nada.

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